10 de abril de 2014

Onde estão as preta e sapatão?

Por Jéssica Ipólito publicado originalmente em Gorda e Sapatão

Queridas pretas lésbicas,

Por onde vocês andam? Parece que desde que assumi minha identidade preta&lésbica, vocês sumiram. Eu não entendi isso… Me assumo, reivindico e vocês desaparecem? Como assim? Me sinto abandonada. Sem acalento, sem afago. Porque isso agora?

Por onde vocês andam, pretas? Não as vejo nas ruas, nas lojas, nos cinemas… Muito menos nas escolas, nas universidades, nas empresas de comunicação social. Não… acho que já teve uma vez  que as vi… Foi de uma forma muito ruim, zombeteira com a gente. Era retratado um estereotipo bem pesado, sabe? Carregado de duplos sentidos misóginos e racistas, lesbofóbico por regra… Eu não aguentei nos ver diante daquela telinha. Do mais, pra falar a verdade, não lembro se cheguei a ve-las em algum filme na tela grande. Não…. pode ser que eu lembre e faça um update neste post, mas por enquanto não lembro.

Pretas de Safo, por onde vocês andam? No trabalho eu não encontro com vocês, aqui vocês não existem. No metrô, eu encontro bastante até, é verdade… Nos identificamos por olhares certeiros mas logo um vagão passa e eu nunca mais as vejo. O que é isso? Não gosto assim… Onde eu as encontro?  Onde é o pico de vocês?

Quero conhece-las. Quero conversar, almoçar e beber com vocês, sempre que pudermos. Mas eu já procurei e não obtive resultados.
Eu sei que vocês existem, resistem e persistem, mas… Onde?!  É muito pungente a necessidade de estar entre vocês, queridas pretas. Pois só assim vou me sentir parte daquele grupo ao qual eu realmente pertenço sem nenhuma pressão exercendo sobre mim. Eu pertenço a este grupo social pois me identifico e reivindico este espaço para promoção de uma emancipação negralésbica! Entendem?

É mágico o encontro daquelas que por muito tempo estiveram separadas… E eu não quero me manter longe.

Será que eu é que frequento espaços errados? Espaço “de branco”?  Algumas minas não-negras não entendem essa minha inquietude de encontra-las… Pra elas, é “tudo sapatão mesmo, não faz diferença”. Mas FAZ SIM!
Faz diferença estar rodeada de pretas e lésbicas, que compartilham comigo, o racismo e a lesbofobia. Faz diferença sim! A forma como as pessoas olham para um grupo de sapas brancas na rua, é diferente do olhar que disparam contra um grupo de sapas pretas na rua.

Não amiga branca, não é segregar. Tão pouco é isola-las de meu convívio ou promover esse tipo de coisa. Essa minha vontade é motivada pelos anos de exclusão existencial ao qual eu estive afundada, obrigatoriamente. E agora, que consegui me livrar de muitas coisas, nada mais justo que queira conviver com aquelas que detém especificidades em comuns comigo. Não acha?

Vou continuar deixando registros de que prezo muito pela união preta&sapatão nos espaços públicos. Vou continuar gritando pra todo mundo ouvir (e ler) que estar cercada por amigas pretas e lésbicas FAZ SIM TODA DIFERENÇA na vida de uma… preta&lésbica!
Pra quem nunca teve um referencial de mulher preta e lésbica pra se identificar e não sentir-se avulsa no mundo, clamar por vocês faz todo o sentido na minha vida.

Women with Colourful Rug,1920 by Max Pechstein

Preciso confessar que esse texto estava nos rascunhos há uns 4 meses já. Eu escrevi num dia em que me sentia triste e muito sozinha. Lembro que chorei e parei na metade da escrita. Me achei muito ridícula por escrever isso… Achei que a culpa era minha por não ser “tão legal assim” e, consequentemente, esse era o real motivo pelo qual eu não tinha amigas preta&sapatão. Eu que não era boa o suficiente para conquista-las…
Desse tempo pra cá, eu percebi que havia caido em mais uma armadilha mesquinha do patriarcado&CIA, que me fez impedir de escrever para as minhas semelhantes.

A dificuldade em encontra-las é porque há toda uma trama perversa que permeia nossas vidas que não nos permitem exibir quem somos. O racismo faz com que nossa identidade preta seja massacrada e, exalta-la aos quatro cantos é digno de vergonha. “Vai ter orgulho de ser preta, menina??? Isso é coisa ruim!” disse uma pessoa que eu prefiro guardar o nome.
E como se não bastasse, nos identificar enquanto lésbicas ou bissexuais, também não é um mar de rosas porque vem estilhaços pontíagudos de preconceito por todos os lados: desde à família até às amizades. No trabalho: Shiiiiiw! Você tem que pagar de heterossexual, fingir que sente atranção pelos caras… Pra se manter no emprego. São poucos os lugares que não te quebram por causa da sua orientação sexual, sabiam? Pois é.  Sair às ruas em plena segurança de nossa negritude e lesbiandade é um furo na barreira racista-patriarcal. E nós conseguimos!
A medida que sabemos da existência uma da outra, acabamos por gerar um efeito benéfico que vai atingir várias minas… Essa é a tal da visibilidade que eu busco. Bom, pelo menos uma boa parte dela.

Maria Rita, Nênis, Luana, Mara, Regiane, Dani, Paloma, Katiara,Drica, Fernanda… Foram algumas das preta&sapatão que eu tive a oportunidade de conhecer, trocar ideia, militar junto, beber e dar risada…. Mas se eu for analisar, elas são minorias. No entanto, as prezo como se fosse minha jóia mais preciosa e rica: o que de fato é.

Zanele Muholi: Between Friends, 2010. Photo by: Zanele Muholi. Courtesy of Michael Stevenson Gallery.

EU ESTOU AQUI!
preta&sapatão,
sou mais uma
dando a cara
à tapa.

Se você aí, que é preta e lésbica, e me leu agora: manda um oi! Me diz sobre a sua existência.

Um beijo!

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